COMANDANTES, MISSIONÁRIOS E AVENTUREIROS
Jorge Álvares
Era capitão de um navio e dedicava-se ao comércio nos mares da China. Em 1547 rumou ao Japão de onde voltou trazendo consigo um rapaz japonês chamado Anjiró. Em Malaca apresentou-se ao famoso missionário jesuíta Francisco Xavier . As conversas entre eles vieram a ter efeitos múltiplos : Jorge Álvares escreveu as sua impressões sobre aquele país longínquo porque o padre lhe pediu. Anjiró dedicou longas horas descrevendo os costumes e a religião do seu povo, também a pedido de Francisco Xavier que se preocupou em fixar tudo por escrito. Os dois textos foram enviados para a Europa e passaram de mão em mão, agora já sem provocar dúvidas, como no tempo de Marco Polo. Deste modo e graças aos Portugueses é que a lenda de Cipango adquiriu contornos de realidade!

S. Francisco Xavier
Era acima de tudo um missionário e portanto não resistiu ao impulso interior que o empurrava para o Japão, onde ainda ninguém ouvira falar da religião cristã. Começou por converter Anjiró, batizou-o com o nome de Paulo da Santa Fé e partiram na companhia de outro japonês e mais dois jesuítas. Desembarcaram a 15 de Agosto de 1549. Apesar de Anjiró ter ajudado a estabelecer os primeiros contatos, a missão não se tornou nada fácil por motivos exteriores e interiores. Os japoneses, que vestiam roupas coloridas e atribuíam significados à escolha de cada tom, estranhavam as vestes negras com que os padres se apresentavam. E riam-se quando eles tentavam dizer algumas palavras em japonês não conseguindo atinar com a pronúncia. Mais complicado ainda era aceitar a religião cristã, pois tinham os seus deuses e as suas crenças. E não é de um dia para o outro que se muda de idéias. As dificuldades não impediram S. Francisco Xavier de persistir . Procurou entender-se com as pessoas, aprender a língua e respeitar todas as regras do convívio social porque em nada perturbavam a mensagem cristã. Deixou de comer carne e peixe, como os chefes religiosos locais, cumprimentava os senhores com vénias profundas e chegou até a vestir-se à moda japonesa. Mas só lhe deram verdadeira atenção a partir do dia em que ele recusou belíssimos presentes em prata que um daimio lhe queria oferecer. Perceberam então que aquele homem não vinha por dinheiro e respeitaram-no. A pouco e pouco houve muita gente que se converteu e batizou. Mais tarde, já havendo cristãos em número suficiente para organizar cerimônias, os padres jesuítas tiveram o cuidado de incluir as delicadíssimas danças japonesas na procissão do Corpo de Deus. Assim tornavam próximo algo que podia parecer-lhes ainda distante. Quando S. Francisco partiu, deixara atrás de si uma semente que daria frutos.

Fernão Mendes Pinto
Nasceu em Montemor-o-Velho numa casa pobre. Partiu para Lisboa com dez ou doze anos e mais tarde embarcou para a Índia, não se sabe ao certo porquê mas ia a fugir de alguém. Durante vinte e um anos percorreu mares e terras distantes como soldado, comerciante, contrabandista, pirata , missionário e embaixador. Treze vezes cativo e dezessete vendido como escravo, passou por mil aventuras, todas com final feliz. Não foi o único, mas foi um dos poucos que as escreveu e bem. Por isso é conhecido em todo o mundo. No seu livro, Peregrinação cada episódio é mais surpreendente do que o anterior. Como não podia deixar de ser, inclui a história da primeira espingarda no Japão que teria sido oferecida pelo seu companheiro Francisco Zeimoto ao governador da ilha de Tanegashima depois de uma caçada aos patos. Mas engraçada mesmo, é a história da segunda espingarda no Japão, essa da responsabilidade do próprio Fernão Mendes Pinto numa outra ilha chamada Kiushu, envolvendo a família de um poderoso daimio. E então é assim: depois de mostrar a espingarda e de fazer várias exibições de tiro, deixou a assistência maravilhada. O mais entusiasta porém foi o filho segundo do daimio. Nunca mais se calou a pedir "Ensina-me a disparar". Quero dominar essa arma". Receando que o rapaz se ferisse, Fernão Mendes Pinto desculpou-se inventando que encher o cano de pólvora e premir o gatilho era uma arte difícil, demorava muito a aprender. Teimoso, como costumam ser os adolescentes, ele não desistiu. Sempre à espreita de uma oportunidade, aproveitou um dia em que o português dormia a sesta e vá de pegar na espingarda. Atafulhou o cano de pólvora como vira fazer e...pan! provocou uma explosão em que o tiro lhe saiu pela culatra. Coberto de sangue, com o polegar da mão direita preso por um fio, o infeliz perdeu os sentidos. De imediato acorreu gente gritando "a espingarda do estrangeiro matou o filho do daimio". Já se preparava uma vingança radical quando por sorte o rapaz acordou, assumiu toda a culpa e exigiu ao pai que poupasse a vida ao estrangeiro. "Se o matarem, eu morro outra vez" dizia. O daimio concordou mas exigiu que o dono da espingarda reparasse o mal que lhe tinha feito. E foi assim que Fernão Mendes Pinto, além de tudo o mais, desempenhou com êxito funções de enfermeiro e médico cirurgião.

 

 

 

 


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