UMA TERRA DE MISTÉRIOS
O Japão fica tão longe da Europa que durante muitos séculos ninguém soube da sua existência .
Quem trouxe as primeiras notícias foi um rapaz de Veneza chamado Marco Polo depois de uma viagem pelo interior da Ásia. No regresso pôs-se a contar o que tinha visto e deixou um livro com histórias fantásticas. Garantia por exemplo que nos confins do mundo, lá para as bandas onde nasce o sol, havia um país de nome Cipango que não tinha senão ilhas. Quase ninguém acreditou e tomaram-no por mentiroso ou sonhador. Mas do seu relato ficaram histórias e palavras saborosas como Cipango... como seria o país das ilhas longínquas? E as plantas? E os animais? E as pessoas? Todas as perguntas ficaram sem resposta até ao dia em que uma tempestade de verão atirou para a ilha de Tanegashima um barco chinês onde viajavam três comerciantes portugueses: Antônio da Mota, Antônio Peixoto e Francisco Zeimoto. Corria o ano de 1543.
Completava-se assim a ligação da Europa ao Extremo Oriente!

VER E SER VISTO
No Japão os Portugueses deslumbravam-se com as paisagens, com as casas leves de madeira e papel onde quase não havia mobília, e sobretudo com as pessoas. Tão delicadas que faziam vénias a toda a hora, falavam baixinho, vestiam túnicas de seda colorida e tinham o costume bizarro de se lavarem constantemente. As mulheres então pareciam bonecas de louça, com a pele branca, muito pintada.
Mas também eles, Portugueses, fizeram imenso sucesso na terra do sol nascente. De toda a parte acorreu gente para os ver. Queriam interogá-los, perguntar de onde vinham e porquê. Mas como, se não se entendiam? Quem serviu de intérprete foi um chinês. Pôde fazê-lo devido a um pormenor engraçado: a língua falada era diferente na China e no Japão. Mas a escrita era muito parecida. Assim o intérprete foi traçando sinais na areia com um pau e lá conseguiu explicar aos japoneses quem eram aqueles homens, de onde vinham e porquê. Eles comentavam entre si : "que grandes narizes têm estes estrangeiros! e os olhos? redondos, enormes...as roupas que vestem são bem esquisitas..." Apesar das diferenças, receberam-nos muito bem e a pouco e pouco tiraram outras conclusões: " Não há dúvidas que os viajantes são simpáticos e pacíficos. Mas quanto a educação deixam muito a desejar. Não sabem comer com pauzinhos, nunca oferecem o copo antes de beberem e, pior que tudo, falam altíssimo mostrando alegria ou zanga sem vergonha nenhuma. Também não se põem de cócoras nem se descalçam para cumprimentar os senhores". Depressa encontraram um nome adequado àqueles visitantes que ignoravam todas as regras de cortesia: Namban-Jin, ou seja, bárbaros do Sul.

A CAMINHO DAS ILHAS
No regresso da primeira viagem os três aventureiros anunciaram aos quatro ventos que tinham chegado ao Japão. Ora nessa época (1543), os Portugueses estavam espalhados pelo Oriente. Havia núcleos que habitavam na Índia e em Malaca e navios que circulavam até à China. Sabiam pois que o Japão existia mesmo, embora só de ouvir falar. Aquele testemunho pessoal excitou a curiosidade e houve logo quem quisesse alcançar as tais ilhas do sol nascente, uns na mira da riqueza, outros por motivos de fé, outro ainda apenas pelo prazer da aventura.

NAGASAQUI
Nagasaqui era uma pequena povoação de pescadores na ilha de Kiushu.
Veio a tornar-se uma cidade próspera graças à presença dos Portugueses.
O primeiro passo foi dado por um padre jesuíta que construiu ali uma igreja e converteu o poderoso Daimio Omura Sumitada. No dia do batismo atribuiu-lhe o nome de Bartolomeu. Ficaram muito amigos e a comunidade cristã alargou-se.
Depois os navios portugueses que vinham comerciar uma vez por ano passaram a ancorar em Nagasaqui. Traziam sedas, lacas, chumbo, mercúrio, armas e ouro da China. E compravam prata e objetos japoneses para levar. Não tardou que a aldeia de pescadores se transformasse num importante centro de comércio, ponte de ligação entre o Japão e o resto do mundo.

O VERNIZ DE AGOSTO
O tempo e a energia que os japoneses poupavam por não fabricarem mobílias era meticulosamente utilizado na confecção de objetos como pequenas escrivaninhas, caixas, tigelas, tabuleiros. Sobre uma base de madeira aplicavam camadas sucessivas de um verniz especial chamado uruxi. Obtinham-no sangrado árvores resinosas. Os troncos escorriam entre Junho e Novembro mas o verniz de melhor qualidade brotava em Agosto. Misturando com pó de carvão, ficava preto. Com sangue de dragoeiro, encarnado. Pigmentos de ouro, prata ou zinco serviam para acrescentar pinturas delicadíssimas às quais se podiam juntar pedaços de madrepérola, pele de raia ou de cação. O verniz tornava as peças impermeáveis e resistentes. Ora os Portugueses perderam a cabeça com aquele material tão prático, sólido e brilhante. Desataram a encomendar bolsas para pólvora, cofres estantes para missais, oratórios, caixas para hóstias, cadeiras, arcas, contadores, cabos de espada, tudo revestido pelo verniz "miraculoso" a que se dá o nome de laca. Quanto à decoração, os missionários faziam pelo menos uma exigência: queriam que figurasse a cruz e os símbolos dos Jesuítas. Essa idéia influenciou os Daimios que passaram por sua vez a mandar incluir sempre os emblemas da família nos seus objetos pessoais.

 


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